POR QUE NÃO TE CONHECI ANTES?

June 11, 2018

 

POR  QUE NÃO  TE CONHECI  ANTES?

Uma experiência de resiliência.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Você já teve a sensação, o pensamento ou já disse alguma vez pra alguém: “

Por que não te conheci antes?”

 

Em algum momento você pode ser invadida(o) pelo pensamento de quão teria sido bom se tivesse conhecido uma determinada pessoa há alguns anos atrás, ou ter lido um livro, ou visto um filme, ou conhecer uma filosofia de vida, ter experimentado uma atividade física que parecia não ter nada haver com você, ou ainda aprender algo diferente...ou tantas outras coisas que parece dar pena, ou mesmo a sensação de nostalgia de não ter experimentado aquele momento num período anterior da vida. E a sensação é de que quanta diferença aquela experiência – não vivida anteriormente - poderia ter modificado de forma positiva a sua trajetória de vida.

 

Ouvi isso recentemente, de uma paciente de 82 anos - viúva como a maioria das mulheres nessa idade – que teve pouca possibilidade de estudo na infância, com uma vida limitada financeiramente, criada com rigor, com um filho dependente químico, e, que apesar da idade ainda é arrimo de família e o porto seguro para as pessoas que a cercam.

 

Essa senhora de semblante doce, olhar respeitoso, humilde, caridosa, com uma fé inabalável, foi encaminhada para acompanhamento psicológico por estar com depressão. Ao longo das sessões fica evidente que “vida” foi severa com ela. Apesar de ser a caçula de uma família numerosa, foi criada num colégio interno de irmãs, onde recebeu muitos dos valores que traz consigo até hoje. Mas também aprendeu a ser submissa - nada diferente de tantas outras meninas/meninos que passaram por este tipo de educação - onde nunca foi possível expressar seus sentimentos, falar de suas “dores emocionais”, discordar das figuras de autoridade.

 

Isto, com certeza, não aconteceu somente nesta instituição que recebia crianças, mas  nas famílias das gerações nas décadas 30, 40, 50 ... ou ainda hoje?

Não ser permitido expressar os sentimentos, falar dos desejos, necessidades e até “re-clamar” da sobrecarga, foi algo vivido durante todos estes anos, por esta mulher. E ainda ter uma auto-exigência e autocrítica severa, fizeram com ela guardasse para si muitos dos seus sofrimentos e pensamentos, sem ousar compartilhar com as pessoas com quem convive por medo de ser mal compreendida e por achar que não tinha direito de se queixar. Quantas pessoas, não vivem isso, e sofrem sozinhas?

 

Quando terminei o curso de Psicologia, na década de 80, o idoso não era “objeto” de estudo, e, não existiam abordagens teóricas que contemplassem esse público. Além de que existia muito preconceito com a Psicologia (isso pouco mudou!) e com a possibilidade de pessoas mais velhas se beneficiarem deste tratamento. Sabe aquele ditado: “pau que nasce torto, morre torto” ou “é de pequeno que se torce o pepino”? Não se acreditava que idosos pudessem fazer transformações na sua vida. Não se tinha tempo para isso, até porque nesta época a expectativa de vida era por volta dos 60 anos, e, as pessoas com 50 anos eram consideradas idosas.

 

Hoje avançamos muito, tanto na medicina propiciando o envelhecimento com qualidade de vida, quanto na psicologia que entende que mesmo em fases avançadas da vida é possível fazer mudanças em conceitos, lidar com os desejos, necessidades e expectativas, bastando ter um novo olhar sobre as mesmas questões. E foi isso que trabalhamos nas sessões de psicoterapia com essa mulher, tão resiliente e sábia diante das adversidades da vida. Mas ao mesmo tempo, com tanta dificuldade para se colocar no centro de sua vida, se permitir pensar e falar de si - sem se sentir egoísta, ser assertiva e colocar os seus “nãos” diante das exigências dos outros, ou ainda, deixar para depois (ou amanhã quem sabe?) aquela tarefa doméstica que se adiada a fazia julgar-se desleixada, ou até por não conseguir delegar coisas simples e complexas para os filhos, e, muito menos deixar de cuidar. CUIDAR, é a palavra que a define. É a sua referência de SER no mundo - só não sabia exercer consigo mesma.

 

Foram muitas questões, em pouco tempo, mas que permitiram com que ela revisitasse cada aspecto da sua vida e pudesse, agora, ter uma nova opinião sobre cada um deles e refletir: “Por que não? Vou tentar!”

 

CHRISTINA BORGES

Psicóloga/ Mestre em Psicologia Clínica/Neurociências - Neuropsicologia

Cérebro Ativo – https: //www.facebook.com/cerebroativopsi  (21) 98581.2121

www.cantinhodageriatria.com.br

 

Please reload

RECEITAS

APRENDENDO A JOGAR

November 6, 2019

1/10
Please reload

POSTS RECENTES

November 6, 2019

September 18, 2019

August 15, 2019

June 15, 2019

Please reload

Arquivo