Casos de Consultório

March 2, 2018

 Casos de Consultório

No último mês recebi duas pacientes de primeira vez. Vieram com seus familiares.

Ambas com uma história de piora do estado geral nos últimos meses. Uma anemia que não melhorava com nada. Outra com dor no quadril que a fez ir pra cadeira de rodas "do nada".

 

Ouvindo as histórias,  perguntando sobre tudo uma luz vermelha foi acendendo na minha cabeça... Tem coisa muito mais séria ai... Ambas sem nenhum plano de saúde. Solicitei exames primordiais que considerei importante tentando minimizar ao máximo o custo para a família. Baixinho pedi a Deus que não se confirmasse o que eu estava vendo e intuindo. 


Os exames chegaram e com eles tudo que não queremos ter que dizer. Uma um tumor no estômago. A outra uma metástase óssea na bacia, ou seja, o câncer primário estava em outro lugar. 


Chamei as famílias sem as pacientes.

Eu já as conheci o suficiente na primeira consulta para compreender que não estavam prontas para ouvir o diagnóstico câncer. Eu discordo de profissionais que tem um desejo quase mórbido de dar o diagnóstico. Sei que o paciente tem o direito de saber. Mas a pergunta que considero mais humana é " o paciente tem condições emocionais de saber?" Eu acredito muito nisso e respeito. Assim como não entendo os prognósticos com data " seu pai tem 6 meses de vida" sua mãe tem no máximo 3meses" . Somos médicos! Deus jamais! Já presenciei milagres suficientes pra saber que nada sabemos. Meu avô Walter teve câncer de fígado. O primeiro médico deu 6 meses. Ele viveu 5 anos sem falar da sua doença uma única vez. Quando perguntavam ele dizia" tenho um probleminha no fígado" Ele não estava mentindo!!!


Olhando para os filhos e netos na minha sala, tentando elaborar o que eu acabava de dizer entre suspiros, choros e silêncios pensei o quanto a possibilidade da morte nos tira da zona de conforto do existir. Definitivamente examinar, dar diagnóstico, medicar é a parte mais fácil de ser médica. Avaliar exames, examinar o paciente é quase simples diante da complexidade das emoções que um diagnóstico ruim traz a tona. Observando as reações daquelas pessoas na minha frente nunca serei capaz de dimensionar onde reside sua paz, onde moram suas culpas, seus medos e suas incertezas.  


Falamos por mais de 1hora discutimos possibilidades, próximos passos e as melhores condutas. 
Apesar do susto inicial e da dor do entendimento do que estava acontecendo recebi de ambas as famílias muitos sorrisos, abraços apertados e palavras de afeto e gratidão. 
Mais uma vez tive a certeza que ter alguém que se importa com nosso sofrimento diante da possibilidade da morte é o que nos traz paz e serenidade. Saber que seja lá como for teremos alguém para segurar nossa mão e dizer " tô aqui" é a diferença entre entender a morte como sofrimento e castigo para percebe lá como parte do processo da vida. 
Respirei fundo e agradeci mais esse aprendizado.

 

Porque a faculdade de Medicina nos ensina a salvar vidas mas jamais a perde las. A morte é vista como derrota por isso nunca se fala sobre ela..


Foi na vida diária como geriatra que aprendi o real sentido.. .
Foi com cada paciente que aprendi sobre humildade, vida, morte e caminhada...
Sigo aprendendo...
Sigo agradecendo...
Sigo firme acreditando que toda pessoa é muito mais que órgãos, doenças e diagnósticos...
Somos seres cheios de alma... muita alma e coração.


Dra Roberta França 
Medicina Geriátrica 
de Corpo e Alma 
Integrando ciências alinhamento e constelação sistêmica dinâmica 
www.cantinhodageriatria.com.br

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