Mamãe Precisa Assinar

December 5, 2017

Caso real

Chega ao consultório um filho muito atencioso e carinhoso ao falar de sua mãe.

Relata-me que é filho único e que seu pai, de 91 anos, encontrava-se acamado e sua mãe de 85 anos tinha acabado de ter um AVC, por isso não falava e nem escrevia.

Como a mãe não conseguia relatar suas dificuldades, fiz uma anamnese com o próprio filho.

 

Descreveu-me como sua mãe era ativa, tomava conta da casa e do dinheiro. Muito católica, adorava ir à missa mas, agora, estava com vergonha pois as pessoas falavam com ela e não conseguia responder.

Sua mãe começou a ficar deprimida e cada vez mais dependente dele, já que com o seu pai não poderia contar.

 

Começamos a terapia e eu sempre explicava a ela o que estávamos fazendo.

Durante a terapia priorizava a sua fala, para que se sentisse mais segura e voltasse à sua rotina. Principalmente ir a missa.

 

Todos os dias quando ela chegava, beijava a minha mão e me abraçava. Eu retribuía aquele amor com todo o meu saber e com o carinho que merecia.

Com o passar da terapia, sua melhora foi surpreendente. Ave Maria e Pai Nosso estavam perfeitamente articulados.

 

Quem a acompanhava no consultório era uma enfermeira.

Um dia recebi um recado do filho me perguntando sobre a escrita. Pedi a ele que comparecesse ao consultório, assim poderia explicar as dificuldades de sua mãe.

Na sessão seguinte, lá estava ele com outro semblante. Cara fechada e extremamente impaciente. Dizia que tinha pressa e não podia demorar.

 

Expliquei a dificuldade de coordenação motora fina decorrente do AVC que sua mãe sofrera. Observei que saiu mais aborrecido do que entrou.

Passado exatamente 15 dias, recebo outro recado do filho.

“Mamãe pelo menos precisa assinar, está me dando muito trabalho para fazer pagamentos”.

Segundo ele, ela também gostaria de assinar.

 

Fiz essa pergunta a ela, já que entendia o que falávamos, balançando em resposta a cabeça que sim. Já escrevia algumas palavras, mas assinar era mais difícil.

Começamos o intensivo para assinar. Quando já se parecia com a antiga assinatura, ela desapareceu do consultório.

 

Procurei saber o que estava acontecendo, mas seu filho não atendia mais aos meus telefonemas.

Não satisfeita com esse sumiço, fui até a casa dela. Para minha surpresa, o filho colocou os pais no asilo e a casa para vender. Segundo os vizinhos, ele batia na mãe para que assinasse os cheques, já que estava demorando muito sair a decisão do juiz referente à interdição dos genitores.

 

O pai morreu em dois meses após ir para o asilo, sua mãe deixou de falar e se isolou por um tempo. Uma sobrinha, vendo todo aquele sofrimento, resolveu levar a tia para sua casa.

Hoje, depois do retorno a terapia, MAMÃE ASSINA todos os seus cheques.

Conseguiram na Justiça reaver alguns bens e o filho nunca mais procurou pela mãe.

 

Ana Maria Mendes

Fonoaudióloga

Contato.anamendes.br@gmail.com

Cel (21)999731439

 

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