CUIDADO: proteção ou cerceamento da liberdade?

December 1, 2017

 

CUIDADO: proteção ou cerceamento da liberdade?

 

No cotidiano do atendimento clínico, as histórias de vida são desvendadas a cada sessão. É um processo, como se fossemos abrindo compartimentos com a permissão, consentimento e desejo do paciente. E assim, muitas vezes, avançamos por caminhos nunca percorridos.

 

Pra mim é fascinante! Me interesso por pessoas, pelas estórias, e por mais estranho que pareça trabalho ouvindo os problemas, as “dores” emocionais, sentimentos, perdas de cada ser humano que deseja se enveredar pelo processo terapêutico. Mas também ouço sobre os momentos de realizações, de superação, alegrias, de encontro, de perdão, de ressignificação da própria vida, mesmo na idade mais avançada.

 

Esta semana durante o atendimento de uma jovem senhora de 64 anos - portadora da Doença de Parkinson, que apesar da idade já tem o diagnóstico há alguns anos – o assunto era sobre as mudanças que ocorreram na vida dela em decorrência das limitações impostas pela doença. Atualmente, devido o medo de sofrer uma nova queda, conta com a ajuda de uma cuidadora para acompanhá-la nas atividades fora de casa.

Ela compartilha a dificuldade em se adaptar a uma pessoa, que até pouco tempo era uma desconhecida, mas agora participa diariamente de sua vida.

 

Com quem não tem afinidades, poucos interesses em comum, formas diferentes de conduzir a vida, reações distintas diante do mesmo problema. Mas ao mesmo tempo considera que a cuidadora é uma pessoa zelosa, responsável, pontual, com valores que ela aprecia.

A decisão de ter uma cuidadora, inicialmente foi das filhas, o que fez com ela que tivesse resistência em aceitar não só a presença de alguém “novo”, mas principalmente que o Parkinson trouxe algumas limitações - que ela normalmente procura driblar com o seu bom humor e uma forma “pollyanna” de ver as adversidades da vida - mas nem sempre consegue.

 

Ao referir o quanto é preciso planejar, às vezes adiar, reformular ou mesmo desistir de um simples passeio pela frente de uma loja de vestidos que ama, disse num momento da sessão: “tem horas que me sinto vencida pela doença.” E percebe que essa fala diz muito mais do que estar cansada de travar uma luta diária contra o Parkinson.

 

Mas retrata as limitações, o deixar de ser ouvida, de ter que adiar seus pequenos prazeres, e, apesar de toda preocupação das filhas - não se sentir dona de si – de estar perdendo a autonomia e a possibilidade de decisão, embora ainda tenha capacidade de gerir grande parte de sua vida.

 

Isso me faz refletir quanto o amor, o cuidado, a proteção pode ser um fator de limitação, de cerceamento da liberdade, de controle do outro em favor do seu bem-estar. Embora muitas vezes exista uma enorme boa intenção! Mas é preciso estar atento pra não decidir pelo outro – quando a pessoa ainda tem condição de tomar decisões, mesmo que pequenas – e, fazer um esforço pra preservar a autonomia apesar da dependência. E isso é um grande desafio!

 

No fundo, penso que todos nós queremos ser ouvido, ter nossas opiniões respeitadas, as necessidades atendidas com carinho, porque atrás de uma doença – seja ela qual for – existe uma pessoa que tem uma história e muito caminho trilhado para chegar até ali.

 

Por CHRISTINA BORGES

Psicóloga/ Mestre em Psicologia Clínica/Neurociências - Neuropsicologia

Cérebro Ativo – https: //www.facebook.com/cerebroativopsi  (21) 98581.2121

www.cantinhodageriatria.com.br

 

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